Escolhas e renúncias

Um jovem quer, a esta altura do ano, abandonar o curso universitário que ele frequenta. A família, apesar de não gostar muito da ideia, apoia o filho. Os pais acham importante que ele tenha liberdade para escolher um caminho melhor em sua vida.

Por sinal, o argumento que o jovem usou para convencer os pais a aceitar sua decisão foi justamente o de que ele se equivocou na escolha que fez. Se soubesse -me disse ele- teria feito outra escolha, a certa, quando prestou o exame vestibular pela primeira vez. Quando perguntei o que ele mirava ao optar pelo curso, ele respondeu que considerou as chances de ter um futuro confortável do ponto de vista econômico. Não será uma meta muito restrita?

Uma jovem mãe, que tem dois filhos, não suportou ver as crianças chorarem todo santo dia quando ela saía de casa para ir trabalhar. Tomou a decisão de se afastar temporariamente do emprego e da carreira para dedicar-se às crianças em período integral. Agora, quase um ano depois dessa sua escolha, ela afirma não saber se agiu bem, porque os seus filhos vivem lhe perguntando quando é que ela irá voltar ao trabalho.

“Eu me transformei em uma megera em tempo integral”, disse ela. E pensar que ela tomou tal decisão justamente para apaziguar o sofrimento dos filhos.

Um pai, que por circunstâncias tristes precisou assumir sozinho a condução da sua vida com a filha, tem muitas dúvidas a respeito de como dirigir, de agora em diante, as decisões que vai precisar tomar. Ele pode, por exemplo, continuar a viver na cidade em que sempre morou com a mulher e a filha.

Ou pode mudar-se, para que a garota fique mais próxima dos seus avós. Ele tem também a opção de escolher uma escola em que a filha permaneça em tempo integral, em vez de contratar uma auxiliar para ficar em casa com ela -e assim por diante.

Como será o futuro da filha se ele decidir por esse ou por aquele caminho? Em todas as situações mencionadas, as escolhas são o nó da questão. E como temos de fazer escolhas nos tempos em que vivemos! Cotidianamente, temos a obrigação de decidir o que comer, qual trajeto fazer, que roupa usar, a qual filme assistir, qual ligação retornar etc. Essas escolhas são tão cansativas que nos esgotam.

Quando as escolhas que devem ser feitas são tão importantes que podem definir pelo menos por um período o rumo de uma ou mais vidas, aí então é que a coisa pega. Nós gostaríamos de ter alguma garantia ao fazer a escolha, não é? O problema é que não existe essa possibilidade.

Quando fazemos escolhas, temos de abdicar de algumas alternativas -e essas sempre continuam a existir, mesmo que virtualmente. E se o jovem tivesse escolhido outro curso? E se a mãe tivesse continuado a trabalhar? E se o pai decidisse ficar morando no mesmo local?

Certamente as vidas deles seriam diferentes, mas, se a vida seria melhor ou pior, nunca ninguém saberá. Por isso, ao ter de fazer escolhas, talvez o melhor passo seja escolher, primeiramente, os valores, as convicções e os princípios que prezamos para tentar priorizar as alternativas possíveis.

E, depois de feita a escolha, o jeito é comprometer-se com ela, honrá-la. O esforço que tal compromisso exige é, sem dúvida, o pedaço mais árduo da jornada.

Sim, porque, no processo da escolha, o difícil é justamente renunciar às alternativas que não foram contempladas. Sem renúncia não há escolha e, sem escolha, não há liberdade.

Escolher quais caminhos tomaremos em relação à educação e à vida de nossos filhos pode ser, portanto, uma lição de liberdade que damos a eles, e não uma limitação em suas vidas, como muitos têm considerado.

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