São José, o educador

No dia 19 de março, comemora-se o dia de São José. São José, o pai nutrício de Jesus. São José, o padroeiro dos operários. São José, o artesão de Nazaré. São José, o santo da simplicidade. São José, o educador do filho de Deus.

A vida de José é narrada nos evangelhos e na tradição dos grandes pensadores cristãos. Carpinteiro, ensinou a Jesus o ofício de talhar a madeira, de tomar cuidado com as ferramentas para não ferir nem a si nem ao outro. Esculpir o formato certo. Fazer com que cada objeto da criação seja útil. Artistas do ofício de fazer peças úteis e belas. Uma cadeira para o descanso. Uma mesa para partilhar. Um armário para guardar o necessário. Um local para servir de aconchego quando se volta ao lar.

No lar de Nazaré, o menino Jesus pode conviver com um homem cioso do seu papel na história. Um contador de histórias, talvez. Jesus adulto gostava de contar histórias e de, por meio delas, desvelar mistérios da alma humana e oferecer ensinamentos para o cotidiano. As parábolas de Jesus nascem de uma mente acostumada a acumular sabedoria. Desde cedo, bebeu em fontes santas e profundamente humanas.

Os textos sagrados não trazem detalhes do dia a dia da pequena família. Maria, a mulher que se acostumou ao silêncio e à profundidade dos dizeres, certamente O embalou em canções de ternura e O ensejou para o protagonismo essencial a todo ser humano. Era ela a mulher escolhida para gerar o Amor e para suportar a dor. No dual dos seus dias, soube inspirar a serenidade. Uma mãe cativante, uma senhora eternamente menina, com títulos tantos para expressar a devoção de povos tantos que, no seu carisma, tentam se animar. 

E José? Sobre o que conversavam? Quais medos tinham? O que os fazia chorar? E sorrir? Saíam para passear? Contemplavam as paisagens daquele local? Como eram as refeições? Diziam o quê, um ao outro, antes de dormir? Amanheciam com quais esperanças?

Na carpintaria, o menino Jesus aprendia na madeira o que haveria de esculpir na humanidade. O Artesão dos homens estava em construção. O ensinamento do Mestre constrói um novo tempo. Era o Amor o Seu tema, e não a vingança. Era de paz que Ele falava e não de acúmulos de ódios ou de posses. Era o abraço ao que estava sem braço por ter sido alijado no caminho. Como José O inspirou a nos inspirar? "O filho pródigo" nos ensina a perdoar e a acolher aquele que se gastou por aí. E nos ensina a estarmos atentos à inveja daquele que se julga sempre correto. O "Bom Pastor" traz o ensinamento de que nenhuma ovelha deve ser deixada de lado. É preciso compreender que cada uma é diferente. E que todas elas merecem atenção especial. Que nenhuma se perca. Precisam elas da voz do pastor. Naquela época, cada pastor que chegava para buscar  suas ovelhas emitia um som que fazia com que apenas as “suas ovelhas” o seguissem, porque elas reconheciam o “seu” pastor. No "Semeador", a necessidade da boa semente. Da semente que cai em terra fértil. E que é capaz de produzir frutos.

Que histórias José contou para o seu filho para que Ele pudesse depois dizer à multidão que O seguia? Sentavam-se eles no chão, talvez, e revezavam-se no dizer e no preencher de vida os dias de preparação. No chão daquelas casas simples em que moravam, a firmeza do caráter ia se moldando. José ensinava o correto nas palavras e nas ações. No respeito à Maria. No acolhimento às dúvidas do menino, de todo menino que necessita da presença do pai. 

Não sei se José ensinou ao filho lições de matemática ou de física ou de geografia. Não sei detalhes daqueles dias naqueles tempos. Sei que os valores fundamentais que educam o caráter de uma pessoa estavam na lida de São José, o educador. Ensinar a ser bom, ensinar a ser honesto, ensinar a respeitar o outro, ensinar a amar. Amar como fundamento da vida em qualquer profissão. Amar como verbo inspirador de outros valores e ações. Amar como razão de existir. Na carta aos Coríntios, Paulo nos ensina que o amor é paciente, é benigno, não é soberbo nem inconveniente, muito menos interesseiro. O amor não se ressente nem se diminui diante do mal. Ao contrário, regozija-se com a verdade e compreende o tempo.

Quando o coração de José falava ao coração de Jesus, as palavras aguardavam. E, assim, na simplicidade de Nazaré, naquela pequena família, os grandes ensinamentos da humanidade estavam sendo esculpidos. Carpinteiros de vidas. Um Novo Testamento. Uma Nova Aliança. Não mais baseada no "olho por olho, dente por dente", mas no abraço que conforta porque compreende que, na trajetória, em algum momento, qualquer um dos viventes pode cair e se machucar. Que nunca falte um "bom samaritano" para agir.

Vez em quando, é bom parar e relembrar a vida de homens que nos iluminam em meio às escuridões que nos frequentam.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/03/2015

 

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