O dia da alegria

E é de novo carnaval.

E é o dia da alegria. Há sambas e marchas e canções que evocam que é hora da tristeza ir embora e da alegria chegar. A festa foi se agigantando país afora. Ritmos e estilos diferentes foram ganhando adeptos. Escolas de samba, blocos de rua, frevos, axé, clubes, salões, bares, botequins. Cada um encontra o seu jeito de viver a festa.

A festa passa. Como dura pouco, já inventaram antecipações e prorrogações. Já criaram carnaval fora de época. Tudo isso para que a alegria possa reinar? Mas o reino da alegria só se dá no carnaval?

Há alguns que extravasam. Rompem suas durezas e se lançam a alimentar fantasias impróprias para outros dias. Há os que bebem em exaustão. Há os que pedem férias de amores duradouros para aproveitar o reinado de Momo com novos acompanhantes. Há os que se vestem do que gostariam de ser, mas não têm coragem nos dias comuns. E há os que desprezam os dias comuns, porque neles não há carnaval.

As despedidas são sentidas. Agora, só no ano que vem. Agora, vêm os dias comuns.

Nada contra o carnaval. Há espetáculos belíssimos que merecem ser contemplados. Há esforço de comunidades inteiras para contar uma história na avenida. Há amigos que saem para brincar e que brincam com os cuidados necessários de quem sabe que amanhã é um dia comum.

Mas se nada tenho contra o carnaval, nada tenho também contra o dia comum. Pois, durante o ano , tem mais dias comuns do que dias de carnaval. E eleger o dia da alegria, apenas no carnaval, é desperdiçar a alegria que está contida em cada dia comum.

Uma vez ouvi um folião dizer a outro: "Beba, beba para relaxar, beba para ser livre, beba para ser feliz!". O outro folião, decidido, respondeu: "Já nasci relaxado, livre e feliz."

Há muitas formas de viver a alegria. O carnaval é uma delas. Ou uma viagem. Há alguns que, nesses tempos de barulho, preferem o silêncio do campo, preferem escalar uma montanha, preferem namorar em casa, um amor romântico ao som de qualquer canção.

Dias de feriado são bons para que pausas necessárias nos recobrem, inclusive, o prazer de estudar, de trabalhar. Dias de feriado nos ajudam a encontrar aqueles que, nos desencontros em que nos metemos, ficam distantes. Dias de feriado são mais escassos do que os dias comuns.

Eleger os dias de feriado como os dias da alegria também não parece ser a melhor escolha.O dia da alegria é, definitivamente, o dia comum. O que acordamos e nos vestimos para viver. E encontramos os mesmos encontros exigindo de nós alguma nova disposição. Amores não envelhecem. Amadurecem. Amizades perdem a curiosidade da novidade e ganham a notoriedade da permanência. Permanecer amigo de alguém é aceitar as misturas que dão sabor ao existir. E a amizade não é assunto apenas de carnaval ou de feriado. É de todo dia.

Quem não encontra a alegria no dia comum não encontrará no carnaval. Quando muito se dopará de uma falsa sensação. E se obrigará a transmitir o que não vive. E se vestirá de uma máscara com tempo curto. Melhor viver o carnaval como se vive um outro dia. Com os cuidados e os desejos necessários. Com os encontros que não causem arrependimentos. Com as danças ousadas e sóbrias. Com explosões que não machuquem ninguém.

O dia comum é um mistério a ser desvendado. A beleza da rotina me faz ver as roupas estendidas no varal e gostar de vê-las. Me faz saborear uma refeição matinal planejando um dia bom que está por vir. Me faz beijar a pessoa que amo amando amar alguém. Como é difícil encontrar um amor! Quem encontrou cuide. Cuidar é um verbo bom de conjugar. No carnaval e nos dias comuns.

O dia comum é um texto leve se o vivo com leveza. Se compreendo que é nessa repetição que a novidade me fascina. Abrir uma porta. Fechá-la. Abrir uma janela. E as cortinas, quando há. Limpar o pó que veio da rua. Ir à rua com o mesmo prazer de chegar em casa. Encontrar na própria casa um canto sagrado, ou mais de um, ou fazer da casa um sagrado aconchego para os dias comuns. Os dias comuns são enfeitados por pessoas comuns. Pessoas comuns são extraordinárias pelo simples fato de serem pessoas. Não se repetem. Nunca. Nem nos dias comuns.

E é de novo carnaval. Que bom! E que bom que, depois do carnaval, vem o dia comum. O dia da alegria.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 26/02/2017

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