A vida de nós dois

Ela estava chegando. Eles estavam chegando. Foi o que ele me disse.

Ela é a mulher. Eles, a mulher e o filho que vai se formando dia a dia dentro dela.

Ele, o que me disse, é o pai. Um pai feliz.

Estão juntos há alguns anos. Ela já tem uma filha, fruto de uma outra história. Ele a cria, como se filha fosse. São felizes os três. E os gatos que vivem no apartamento deles. E, depois de muitos anos, vem ela com a notícia de que terão um filho.

A mãe dele já começou a costurar o que haverá de agasalhar o menino. Sim, já sabem que é um menino. Ele, que é flamenguista, está grávido das histórias que haverão de viver juntos. Dos jogos de futebol. Das corridas na praia. Dos passeios em família. Fala com os olhos acompanhando a voz. Fala da mulher que está chegando e me diz, com romantismos aos montes, que ela é linda, muito linda. Ela chega e nos cumprimenta. Disse que engordou muito. Ele sorri. Fica quase sem texto de tanta paixão. Não sei se é invenção minha, mas percebi os seus olhos marejados. Ela disse quanto engordou. Disse que não estava enjoando mais. Disse que a filha é quem havia decidido o nome do irmão. José Pedro. Disse que passou alguns dias em repouso. Ela foi dizendo e dizendo. E ele, com aqueles olhos, fitando a amada. Grávidos os dois, certamente. Ela voltou a falar em gordura. Foi quando ele protestou com delicadeza. Confessou ali que ela era a mulher mais linda do mundo. E que "a vida de nós dois" estava fazendo dos dois o casal mais feliz do mundo. Ela sorriu. Ele abaixou e acariciou a barriga. Conversou com o filho. Teve a certeza de que ele estava ouvindo. Ela acariciou o cabelo do marido, enquanto olhava para baixo e contemplava a conversa entre seus dois amores. Explicou que agora serão quatro. E mais os gatos.

Disse ele que tiveram tempos difíceis. A crise financeira é grave. Contas não esperam a maré baixar. Desânimos de negócios que não se concretizam. "Mas tudo mudou", explicou o pai. Para nós. Para os meus pais. "Você não sabe quanto estamos trabalhando a mais", falou ele. "Quanto queremos melhorar este mundo para esse menino que está chegando". Abraçaram-se os dois. Beijaram-se com delicadeza. Ela se foi. E ele continuou falando de suas histórias.

Fiquei ouvindo. Fiquei comungando daquele sagrado enlace. Fiquei sonhando com que outras histórias pudessem ser assim.

As vidas em formação no ventre de uma mulher sentem as ausências e as ternuras, a violência e os beijos, os gritos e as palavras de boas-vindas. As mulheres grávidas vivem as carências naturais de um corpo em transformação. Mas quando encontram companheirismo, permanência, amor, as carências compreendem que há algo mais profundo pedindo para nascer. Monteiro Lobato, em determinado momento da vida, cansado dos cansaços provocados pela perversidade dos homens, resolveu escrever para as crianças.

Os homens agridem, insultam, mentem, violentam a própria essência. O que os leva a isso? O que os leva a dessacralizar o sagrado sentimento do amor? Mulheres grávidas também são espancadas ou esquecidas. Crianças recebem os ódios dos adultos. Desperdiçam os adultos a suavidade de um beijo em uma barriga que cresce e cresce, com uma vida que trará a outras vidas, vida. É do poeta indiano Tagore a mensagem de que "cada criança que nasce nos traz a mensagem de que Deus não perdeu a esperança nos homens".

Despedimo-nos. Ele ainda teve tempo de dizer que faria, naquela noite, uma surpresa para sua mulher. Surpreendemo-nos com essas histórias, recheadas de humanidade. É isso o que somos. A perversidade não faz parte de nós. Chega por alguma razão. Fica. E espanta o que de fato somos.

Qual o surpresa que ele fará para sua mulher? Pouco importa. O que importa é o sorriso nos olhos, quando ele diz isso, e pensa que a noite será deles.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 04/06/2017

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