Aniversário do Brasil?

"Mãe, por que os meus amigos viajam no meu aniversário?". Era a pergunta que Heitor fazia a sua mãe, Mariana.

"Filho, porque é feriado. É como se fosse aniversário do Brasil".

Heitor ficou olhando para a mãe, para o alto e pensando que, nos seus longos 6 anos de vida, teve muitas festas postergadas para comemorar com os seus amigos.

"Na verdade, filho, é a comemoração da independência do Brasil".

"Independência é a mesma coisa que aniversário?", pergunta o menino.

A mãe pensa em como explicar. Diz que os portugueses chegaram ao Brasil e que isso ficou conhecido como descobrimento. Heitor parece não concordar porque aqui já viviam os índios. Na opinião dele, quem descobriu foram os índios. A mãe não discorda. E prossegue tentando explicar o que é a independência. “O Brasil, por meio de um grito, que talvez não tenha sido um grande grito, resolve que não mais obedeceria a Portugal. Que tudo o que era do Brasil seria dos brasileiros”.

"Inclusive dos índios?", insiste Heitor ainda envolto nos pensamentos de que os índios não podiam ser excluídos do país a que chegaram primeiro.

A mãe começa uma explicação tentando mostrar o que significa essa independência. Mariana não é especialista em história ou em direito constitucional, mas é uma mãe ciosa da educação do filho e quer que ele enxergue um país que enxerga todos os seus filhos. Os índios, também. “A festa da independência é apenas uma data para que se lembre do sonho de um país livre. Construído com esforços comuns de todos os filhos. Sem excluir ninguém”.

"Mãe, quando eu crescer eu vou ser o quê?"

"O que você quiser, Heitor".

"Se eu for jogador de futebol, você vai ficar feliz?"

"E por que você quer ser jogador de futebol?"

"Você prefere que eu seja papa?"

Mariana ri. "Papa?"

"Eu não sei, mãe. Pode ser papa e médico?"

"Sabe, filho, você tem tempo para escolher o que quer ser. O que importa é estudar muito. É gostar das pessoas. É ser bom. É agradecer pela vida que você tem. É, em cada aniversário, pensar no que fazer para ser melhor".

"E o Brasil, mãe?"

"O Brasil?"

"O que tem que fazer para ser melhor?"

Mariana fica feliz com a pergunta do filho. Pensa um pouco e decide que é ele quem tem que dizer:

"O que você acha que o Brasil tem que fazer para ser melhor?"

"Que corrija as coisas erradas, né? Tem muita coisa errada, né, mãe?

"O que, por exemplo, meu filho?"

"Acho que eu quero ser presidente".

"Não quer mais ser papa, médico, jogador de futebol?"

"Quero cuidar de todo mundo. Sabe que tem gente na escola que nem tem comida direito em casa. E tem um amigo meu que chega todo machucado. O Leo disse que ele apanha do pai dele".

"E de onde veio essa ideia de ser presidente?"

"Do Leo. Ele diz que quer ser presidente do Brasil. Eu também quero, ué?"

"Você tem muita vida pela frente, meu filho. Continue assim. Pensando no futuro. E sendo bom no presente". Heitor olha para a mãe e concorda com a cabeça.

"Sabe, filho, você é um presente para mim. Desde que você nasceu, minha vida mudou. Quando eu estava grávida, quando você estava dentro da minha barriga, eu passava a mão e ficava pensando, quando essa criança nascer ela vai ser a pessoa mais importante da minha vida, e os meus sonhos passarão a ser os sonhos dela".

"Mãe, você é a pessoa mais importante da minha vida, também". Mariana beija Heitor. Era o amanhecer de um dia ensolarado. Um dia de setembro. Um mês bonito em que as árvores se mexem e se verdejam ainda mais. Um mês de esperança. Mariana já desanimou do Brasil muitas vezes. O que lê e vê a deixa decepcionada. Onde estão os sonhos dos que, hoje, exercem o poder? Por que a mentira rasurou nossa bandeira? Por que os ódios, as ambições, as dissimulações ganharam tanta força?

Ah, mas é setembro. É o mês do aniversário da independência do Brasil. E do Heitor. Os olhos entusiasmados do filho devolvem a ela muito do verde que desbotou da nossa bandeira. Até a Amazônia querem destruir! Os dias não estão bons, decididamente, mas há outros olhos como os de Heitor olhando o que pode ser o amanhã. Jogador de futebol, papa, médico, presidente. Não importa o que ele será. Importa que ele seja bom.

"Mãe, me conta uma história, bem legal". "Deita aqui, meu filho, vou te contar uma história que se passou na Amazônia, que fala de um índio que amava muito a sua terra".

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 10/09/2017

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