À rainha de Rachel de Queiroz

Por Gabriel Chalita

“O inimigo do meu texto sou eu. Quem não é exigente e cai na complacência está perdido. Quem achar que o texto está bonito, está perdido… Entrego o livro para o editor morrendo de medo”. Por meio desses dizeres contundentes e confessionais, proferidos pela escritora Rachel de Queiroz em entrevista à Bia Corrêa do Lago, no programa Umas palavras, do Canal Futura, é possível vislumbrarmos a dimensão da mulher extraordinária que foi a autora do romance O quinze, escrito na época em que era uma jovem professora de 19 anos.

A obra aborda o flagelo da seca que atingiu o Nordeste brasileiro em 1915. O livro, elogiado por Mário de Andrade e Augusto Frederico Schmidt causou forte impressão no meio literário, a ponto de o escritor Graciliano Ramos duvidar da autoria do texto de Rachel: “Durante muito tempo, ficou-me a ideia idiota de que ela era homem, tão forte estava em mim o preconceito que excluía as mulheres da literatura”, confessou o autor de Vidas Secas. Mas o processo de criação de O quinze já oferecia pistas sobre a genialidade da autora. “Eu era uma moça magrinha. Minha mãe tinha muito medo de que eu ficasse tísica e me proibia de dormir tarde. Assim, escrevi O quinze às escondidas, depois que todos dormiam, de barriga no assoalho, em caderno de escola, à luz de lampião”, revelou em depoimento ao jornalista Roberto D’Avila. Mesmo sendo autocrítica, modesta, incapaz de enxergar o verdadeiro valor de sua literatura, Rachel de Queiroz tornou-se uma das personalidades mais representativas do cenário nacional. Sua prosa concisa, direta e impactante trouxe à baila uma nova perspectiva literária para o Brasil do início do século XX. Assim como a maioria das mulheres nordestinas, suas personagens eram fortes, decididas, partidárias de lutas incomensuráveis. Lutas contra a pobreza, a seca e as injustiças sociais que recaíam com maior intensidade sobre as representantes do sexo feminino. Injustiças que emolduravam um país tradicionalista, conservador, patriarcal. Pioneira, Rachel de Queiroz quebrou paradigmas durante toda a vida. Sua precocidade era, sem dúvida, um dos pilares que sustentavam sua postura singular. Rachel escreveu suas primeiras histórias aos 11 anos. Textos de terror que qualificava em suas entrevistas como “ruins demais”. Mas seu talento, comumente, extrapolava suas considerações a respeito do seu trabalho. Ainda adolescente, a professorinha causou espanto ao assinar artigos nos jornais do Ceará sob o pseudônimo de Rita de Queluz. Décadas depois, em 1977, foi a primeira mulher a entrar na hermética Academia Brasileira de Letras. Já sua paradoxal trajetória política – Rachel passou de comunista à defensora da direita no período pré-64 – é mais um traço marcante capaz de expor sua natureza firme, coerente, sobretudo, com as suas próprias idéias e a independência de mudá-las sempre que achasse necessário. Rachel nunca se deixou abater pelo medo ou pela covardia. “Sou uma mulher prática. Como boa cearense, arredondo o lombo e aguento a pancada”, afirmou à Bia Corrêa do Lago. Sua autenticidade era admirada por todos. Essa qualidade, somada às outras incontáveis virtudes que possuía, certamente contribuiu para que o acadêmico Arnaldo Niskier a comparasse a uma rainha. “Temos muitas princesas, mas… rainha, só Rachel de Queiroz”. A escritora, entretanto, pensava diferente e elegeu outra mulher para o alto posto monárquico das letras nacionais: “Clarice (Lispector). Ela foi a maior de todas nós”, declarou, em 1997, aos editores do Cadernos de Literatura Brasileira. Rachel era mesmo surpreendente. Divorciou-se numa época em que poucas mulheres tinham coragem de fazê-lo. Não é à toa que saíram de sua pena personagens como a professora Conceição, de O quinze, Dôra, Doralina, do romance homônimo, As três Marias, do livro do mesmo nome e, é claro, a protagonista de Memorial de Maria Moura. Na complexa escola da vida, nossos jovens precisam alimentar-se da prosa de Rachel, precisam aprender a amá-la e a louvá-la, como fez o poeta Manuel Bandeira quando escreveu: “Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo. Louvo Rachel, minha amiga, nata e flor do nosso povo. (…) brasílica, brasiliense, brasiliana, brasileira.(…). Louvo a sua inteligência, e louvo o seu coração. Qual maior? Sinceramente, meus amigos, não sei não (…)”. Nesse momento em que a presença física de Rachel não mais existe entre nós, temos, mais do que nunca, de celebrá-la. Temos de apresentar suas histórias, suas mulheres e seu sertão às novas gerações que desconhecem a delícia de saciar a sede de bons textos na sua prosa. E para quem já desfruta de seus escritos, resta apertar um livro de Rachel no peito, imaginando a frase simbólica e bela que dá nome à fazenda da autora, em Quixadá, no Ceará: “Não me deixes”. É isso. Que a obra de Rachel sempre nos acompanhe. E louvado seja.

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