"Foi assim que começou o meu dia", conta Roseane, para sua mãe. "Acordei cedo. O dia me acordou esquisito. Exigente de que, antes do necessário, eu me levantasse. Os pensamentos roubaram-me a paz. Tantas incertezas. Sabe como é a vida de artista. Dura.

Teimosa, resolvi dormir. E nada de sentir o nada. Apenas um martelar de inconformismos. Fiquei brigando comigo mesma em pensamento. Dizendo o que deveria ter dito em uma ocasião. E em outra. Ensaiando o que direi se voltar a encontrar. Tudo isso antes do senhor Sol dar o ar da graça.

Comi sobressaltada. Mirela se ajeitava para ir à escola, e eu a olhava com gratidão. Minha filha. Um ensaio de lucidez aos 9 anos de idade. Será melhor do que eu, quando chegar o momento das decisões. Nova briga comigo mesma. Devia ter dito isso. Devia ter retrucado. Não devia ter dito aquilo. E o dia se seguiu. Cansativo. Nada de novo. Nem a comida. Há algum tempo tenho brigado com os sabores. Nada me realiza. Desde que o Junior se foi. E eu queria que ele tivesse ido. Havia um sufocamento com a sua presença. Há um sufocamento com a sua ausência. Consegue me entender?

Quando ele estava comigo, eu dizia para mim mesma: e estando, me faltas. E agora que ele me falta eu digo para mim mesma: e agora?".

Roseane para um pouco. A mãe apenas ouve. E espera.

Quando pode, Isadora vai ao baile. Quando pode, porque tem ela o dever/prazer de cuidar dos netos. Tem ela as atribuições de abrir e fechar a Igreja e de preparar tudo para que os que buscam oração se sintam acolhidos.

Isadora já completou muitos anos de vida, anos intensos. Enterrou alguns dos seus. Chorou o inconformismo da perda. Em seu coração, Isadora gostaria de que tudo fosse eterno. A felicidade é uma estrela distante de ser compreendida se perdemos quem amamos.

Um filho se foi. O marido, também. E, também, os pais. E a única irmã. Mas há os filhos que restaram. Dois. Um casado e outro solteiro. O casado tem 5 filhos. Netos que enfeitam de aroma a árvore da vida de Isadora.

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