A leveza da amizade contrasta com os delírios da paixão. A paixão é exigência; a amizade, não. A paixão é entorpecente, a amizade é suave. Se não for suave, deixou de ser amizade. Se for utilitária, deixou de ser amizade. Há amizades que duram toda uma vida. Há outras em que se percebe a necessidade do partir.

Em um mundo de aduladores e interesseiros, urge relembrarmos o ditame bíblico, "quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro". Tesouro mais nobre do que os nobres metais preciosos, que se perdem com o tempo. A amizade, a verdadeira, permanece.

Há quem diga que a paixão causa sensações bioquímicas. Sensações que perseguimos para encontrar a felicidade. Sensações que buscamos em remédios e drogas, em lembranças e esquecimentos. Lembrar a primeira dose de algo que não fez bem, que me picou, que me viciou, lembrar os delírios do que nem existiu. Esquecer e dormir. Dormir uma noite de paz sem os solavancos dos pensamentos. São, talvez, essas as sensações que buscam os que se acompanham de tantos medicamentos. Não. Não sou conhecedor suficiente para falar de tranquilizantes ou de outras pílulas. Nem dos vícios químicos. Nem é esse o meu intento aqui. Quero falar da amizade. Do prazer puro que brota da biologia das relações ao saber que há um amigo que virá ao meu encontro para fazer nada. Apenas para estar comigo. Sem planos de planificar algum empreendimento, sem interesses de amealhar alguns bens, sem necessidade de prazeres carentes do que é matéria. Apenas nós, meu amigo e eu, e uma brisa que nos relembre de que é bom estarmos ali. Ali onde? No lugar sagrado do encontro. No lugar em que podemos tirar os sapatos ou os chinelos e pisarmos sem receios.

"Mãe, por que os meus amigos viajam no meu aniversário?". Era a pergunta que Heitor fazia a sua mãe, Mariana.

"Filho, porque é feriado. É como se fosse aniversário do Brasil".

Heitor ficou olhando para a mãe, para o alto e pensando que, nos seus longos 6 anos de vida, teve muitas festas postergadas para comemorar com os seus amigos.

"Na verdade, filho, é a comemoração da independência do Brasil".

"Independência é a mesma coisa que aniversário?", pergunta o menino.

A mãe pensa em como explicar. Diz que os portugueses chegaram ao Brasil e que isso ficou conhecido como descobrimento. Heitor parece não concordar porque aqui já viviam os índios. Na opinião dele, quem descobriu foram os índios. A mãe não discorda. E prossegue tentando explicar o que é a independência. “O Brasil, por meio de um grito, que talvez não tenha sido um grande grito, resolve que não mais obedeceria a Portugal. Que tudo o que era do Brasil seria dos brasileiros”.

"Inclusive dos índios?", insiste Heitor ainda envolto nos pensamentos de que os índios não podiam ser excluídos do país a que chegaram primeiro.

A mãe começa uma explicação tentando mostrar o que significa essa independência. Mariana não é especialista em história ou em direito constitucional, mas é uma mãe ciosa da educação do filho e quer que ele enxergue um país que enxerga todos os seus filhos. Os índios, também. “A festa da independência é apenas uma data para que se lembre do sonho de um país livre. Construído com esforços comuns de todos os filhos. Sem excluir ninguém”.

"Mãe, quando eu crescer eu vou ser o quê?"

"O que você quiser, Heitor".

"Se eu for jogador de futebol, você vai ficar feliz?"

"E por que você quer ser jogador de futebol?"

"Você prefere que eu seja papa?"

Mariana ri. "Papa?"

"Eu não sei, mãe. Pode ser papa e médico?"

"Sabe, filho, você tem tempo para escolher o que quer ser. O que importa é estudar muito. É gostar das pessoas. É ser bom. É agradecer pela vida que você tem. É, em cada aniversário, pensar no que fazer para ser melhor".

"E o Brasil, mãe?"

"O Brasil?"

"O que tem que fazer para ser melhor?"

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